Precipícios Imperiais: os dilemas gêmeos da Marinha do Império Galático e da Marinha Imperial Japonesa

Napoleão Bonaparte costumava dizer que, na guerra, o moral das tropas superava em importância fatores materiais na proporção de três para um. É com muita relutância que se deve discordar do Grande Corso, mas é importante notar que suas guerras foram quase todas travadas na Europa, entre os exércitos das potências tradicionais do continente.

Suas palavras poderiam soar bem diferentes para guerreiro jaguar asteca que, com sua espada de madeira e obsidiana e armadura com plumas, teve de enfrentar o conquistador espanhol, munido de armas de fogo e armaduras de aço. Não se pode duvidar da coragem e determinação do primeiro, afinal o guerreiro asteca nascia e vivia para a guerra, mas o sujo, pragmático e implacável invasor estrangeiro dispunha de meios que a doutrina militar ritualizada asteca não tinha como compensar, nem mesmo compreender. Também não ajudou em nada a falta de resolução e objetividade da liderança asteca quando alguma correção de curso ainda era possível, insistindo nos erros que levariam ao colapso e conquista desse Império mesoamericano.

Também não resta dúvida que o piloto do Império Galático, ao sentar na carlinga na sua nave sem escudos ou sistemas de suporte à vida, da mesma forma que o piloto das Forças Armadas do Império japonês, entende o significado da palavra “sacrifício”. São homens e mulheres que sabem que morrer pelo seu Império é viver para sempre, abraçando o risco de sua missão com devoção quase religiosa.

Todavia, nem todo o zelo e perícia militar de soldados e pilotos pode corrigir os erros de seus planejadores quando esses se acumulam além de um ponto crítico. Vejamos, pelo menos três pontos em que a crise dessas duas potências se aproximam.

 

“Você não pode matar o que não pode acertar”

No início de suas guerras, tanto o Império Galático quanto o Japonês, tinham os modelos mais ágeis de suas eras. Tal qual o diabólico TIE Interceptor, o A6M Zero era fenomenalmente ágil e bastante manobrável, capaz de fazer curvas fechadas com mais facilidade que qualquer modelo aliado em ação no Pacífico em dezembro de 1941 e num dogfight tradicional era um adversário quase imbatível.

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Como se não bastasse, os Zeros e Interceptors ainda eram pilotados por alguns dos homens e mulheres mais experientes e habilidosos de seu tempo. Profissionais da guerra, treinados nas melhores academias imperiais e testados em combate, fossem em guerras de pacificação, fossem nas campanhas da Manchúria e da China.

Mas isso viria com um preço. Em troca do alcance, manobrabilidade e agilidade, Zeros e Interceptors sacrificariam proteção para o piloto e inovações tecnológicas importantes. As primeiras versões do Zero não dispunham de tanques de combustível autolacráveis ou blindagem adicional para o piloto. O Interceptor não tem escudos, possui apenas míseros três pontos de fuselagem e carece de qualquer slot, salvo o Talento de Piloto e somente na metade do contingente.

Um piloto experiente de Zero ou Interceptor poderia voar em círculos ao redor de um noviço usando um Wildcat ou uma Y-Wing, mas enquanto os primeiros estavam existencialmente ameaçados por uma rajada metralhadora certeira ou uma única granada antiaérea nas proximidades, os últimos estavam em robustos aparelhos construídos para suportar castigo, dispondo de slots disponíveis para melhoramentos e novas táticas no futuro, com uma melhor chance de sobreviver para lutar outro dia. Cada ace perdido era insubstituível, cada piloto mediano que sobrevivia, se tornava um guerreiro melhor, e no final é a massa silenciosa que ganha guerras, mesmo que os aces levem as medalhas.

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No final da Segunda Guerra, o Wildcat ainda voava valiosas missões de escolta da Frota Americana no Pacífico, enquanto uma massa destreinada de pilotos de Zero, já em avançado estado de obsolescência, não tinha outra escolha além de se atirar contra as huge ships aliadas em ataques Kamikaze na esperança de causar algum dano. Hoje, o humilde Piloto do Esquadrão Dourado é 15º no ranking do Meta-Wing e o outrora invencível Barão Soontir Fel jaz esquecido na 89ª posição.

A história não é sem senso de ironia.

 

“Se você me vê, eu posso lhe ver”

Em X-Wing, nenhuma vantagem tática se compara a possibilidade de atirar num ângulo de 360 graus. A razão é simples: ao atirar em todas as direções você elimina o risco de ser atacado impunemente. Sua pilotagem pode então dedicar-se tão somente a garantir a troca mais favorável, seguro que não há lugar onde o inimigo possa se esconder. Mesmo em naves com cantos cegos, como a YT-2400/HLC ou Y-Wings/TLT, a área coberta por suas torres de tiro é tão imensa que apequenam qualquer rival com arcos fixos.

O Crime Organizado e os Anarquistas Rebeldes entenderam bem essa lição, ajustando sua doutrina militar e indústria de acordo. A Máfia Galática possui cinco modelos em atividade com alguma capacidade de tiro em 360 graus, incluindo o Flagelo da Borda Externa, a Jumpmaster 5000, e vinte pilotos especializados, como o pirata freelancer conhecido como “Capitão” Nym e o perigoso mercenário Dengar, o Deformado.

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Já os extremistas rebeldes possuem uma verdadeira obsessão com esse tipo de arma. Nada menos que nove naves disponíveis, numa vasta gama de preços e capacidades, e inacreditáveis trinta e sete agitadores, com os mais diversos esquemas e vícios, prontos para incendiar a Galáxia.

O planejador imperial, por sua vez, demonstra uma inexplicável teimosia para com o desenvolvimento de torres de tiro, dispondo nosso arsenal de apenas dois modelos e oito pilotos. A dispendiosa VT-49 Decimator, nossa solitária torre primária, está sobrecarregada pelo fato de ser a única nave imperial capaz de levar tripulações e participar integralmente da batalha, além de sofrer com o aumento generalizado de poder de fogo em X-Wing, fato que a obriga a fugir de arcos em todas as ocasiões ou arriscar uma hemorragia de MOV. A TIE Aggressor é uma nave decente, mas nada mais é que uma tímida tentativa de igualar capacidades que o inimigo já dispunha por dois anos. Os pilotos, com exceção do valente Contra-Almirante Chiraneau e do simplório Sienar Specialist, são por demias complexos, caros ou sem imaginação. São, por assim dizer, “too few, too late”.

O Império do Japão também teve a sua cota de teimosia ruinosa, em nível de Armada, na escolha do tipo de huge ship que dominaria sua frota, uma vez que sua marinha não percebeu a tempo que o porta-aviões, e não o encouraçado, era o novo rei dos mares.

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Enquanto a US Navy já dirigia sua produção industrial e organizava suas Task Forces com foco nos Porta-aviões, a Marinha Imperial gastava seus limitados recursos lançando superencouraçados, como o Yamato e o Musashi, navios que por mais blindados e armados que fossem, precisariam de reconhecimento e cobertura aérea que só um Porta-aviões poderia fornecer. O encouraçado, entre 1942 e 1945, veria seu poder declinar até o ponto da natimorta Upsilon, ambos tinham excepcional poder de fogo e resistência, mas isso de nada adianta se você não tem oportunidade de despejar sua carga mortal.

Pelo menos aqui há um consolo ao Império Galático, pois o Japão não foi uma potência surpreendida pelas inovações do inimigo, mas o contrário, foi o grande pioneiro da aviação embarcada, tendo batido a quilha do primeiro navio construído especialmente para a tarefa de lançar e recolher aviões nos anos 20 e organizado devastadores ataques aeronavais no início da Guerra do Pacífico. O Império Japonês simplesmente não compreendeu a importância de suas mais brilhantes inovações.

 

“Um Titã com muitos tentáculos e nenhum equilíbrio”

Quando nos referimos a “Força Aérea” do Japão Imperial, escondemos uma de suas mais espetaculares fraquezas. O correto seria se usar o termo “Forças Aéreas”, pois não havia uma estrutura de comando unificada, como nos moldes dos seus aliados alemães da Luftwaffe. Tanto o Exército Imperial, quanto a Marinha, possuíam seu próprio braço aéreo.

Como se não bastasse, havia uma terrível rivalidade entre as duas armas, o que levou a péssima coordenação antes e durante a guerra. Basicamente, as forças armadas japonesas se prepararam para lutar duas guerras diferentes, o Exército contra a China ou União Soviética, a Marinha contra os impérios coloniais europeus e os Estados Unidos, quase sempre em oposição aos planos do outro, levando ao limite o potencial humano e a capacidade industrial limitada do país.

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Para os pilotos e soldados do Império do Sol Nascente isso significava uma miríade de dificuldades, incluindo desperdício com o lançamento de modelos redundantes que não traziam grande benefício entre si, ciclos de desenvolvimento mais lentos, a demora em retirar de linha modelos em avançado grau de obsolescência, a demora na adoção de inovações técnicas entre os modelos existentes e vindouros e, o mais grave, a falta de uma doutrina unificada para resistir a um inimigo que tinha o potencial de se tornar, como se tornou, muitas vezes mais poderoso que o Japão.

O Império Galático sofre de muitos dos mesmos sintomas dessa doença, onde a desconfiança dificulta a adoção de um plano comum coerente. Durante muito tempo, sobrevivemos com folga do talento individual de guerreiros lendários, the Galaxy’s Finest, como Lord Vader, o Barão Soontir Fel, a elusiva Whisper, ou do valoroso sacrifício de pilotos anônimos do Grupo Omicron ou cadetes da academia, mas os revezes recentes revelaram a amarga realidade que o Império não possui mais uma doutrina militar, pesquisa ou desenvolvimento compatível com nossos traiçoeiros inimigos.

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Basta ver o magnífico trabalho que os fanáticos rebeldes fizeram na trilha de desenvolvimento entre a YT-2400, a K-Wing e a Scrugg Bomber. Ou que crime organizado fez na trilha Jumpmaster 5000, Lancer e Scrugg Bomber. Cada um dos modelos complementou o papel do outro, sem redundância ou desperdício, adicionando novas capacidades e papéis. Todos continuam viáveis, integrados.

A comparação com desastres recentes de desenvolvimento da engenharia imperial chega a ser embaraçosa. A anêmica TIE Punisher não corrigiu quaisquer dos problemas da TIE Bomber, apenas os expandiu em tamanho e custo. A sucessora da Lambda Shuttle, a exorbitante Upsilon Shuttle, chegou com muita fanfarra, mas logo se mostrou menos hábil em aliviar o estresse de seus pilotos e tripulações e apenas marginalmente mais móvel que o velho cavalo de guerra da distante Wave 3. A TIE Striker poderia ter sido uma resposta criativa à decadência da frágil TIE Interceptor, se a equipe de R&D não tivesse esquecido que Twin Laser Turrets existem.

E o problema não está apenas nas naves que já nascem mortas, está na falta de slots especializados e tripulações e que possam afivelar as várias opções imperiais. Sem acesso a Astromech, Salvaged Astromech ou Ilicit e não dispondo de nada remotamente comparável, as naves imperiais sofrem de dogmatismo e conservadorismo. São mais vulneráveis ao lançamento de cada novo modelo inimigo, que beberá de uma fonte maior possibilidades de táticas, colocando um peso imenso sobre o piloto imperial.

Durante algum tempo, o nosso amado Imperador fez o papel de elemento unificador das nossas melhores qualidades, mas depois do atentado durante o último Grande Nerf, não há nada que se iguale à piromaníaca Sabine Wren, o renegado Kanan Jarrus, o bandido Cade Bane, o deformado Dengar ou aos infalíveis K4s.
Só nos resta o egomaníaco tripulante Kylo Ren, cujo poderoso feitiço depende do auxílio de todo seu esquadrão, nosso Imperador ferido e uma coleção de anciões veteranos de waves passadas como Gunner e Rebel Captive.

Como um gigantesco octópodes cego, o Império Galático se estende em todas as direções no seu planejamento estratégico, mas parece incapaz de agarrar algo firmemente quando a maré muda bruscamente.

 

Epílogo: “Mil Estrelas”

Em meio ao desânimo que essa análise pode causar, existem algumas conclusões positivas. A crise no Império Galático está formando um tipo de piloto que não é estranho a improvisação e a criatividade. Um aluno que estuda com fanática devoção as virtudes do outro campo e procura compreender suas próprias falhas até a raiz.

Pressionado pelo peso da adversidade, o imperial sabe que tem de jogar muito bem ou morrer… o adversário tem outras escolhas. Quando os ventos mudarem, e eles irão mudar, pois assim é a guerra, teremos a inestimável experiência desse período de trevas.

No final, o Império do Sol Nascente era uma pequena cadeia de ilhas no Pacífico, que abocanhou mais do que podia mastigar e pagou caro por isso. Nós somos o Império de Mil Estrelas, de uma Galáxia inteira, não há derrota possível enquanto estivermos decididos a lutar.

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Um comentário em “Precipícios Imperiais: os dilemas gêmeos da Marinha do Império Galático e da Marinha Imperial Japonesa

  • 10/11/2017 em 8:45 pm
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    Este artigo enfatizou minha atual inclinação de abandonar a vida no “crime organizado” dos Hutts e me submeter as rígidas disciplinas imperiais.

    Parabéns.

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